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COMORBIDADE PSIQUIÁTRICA E-mail
Escrito por Vincenzo Guidetti e Federica Galli   

CONCEITOS

 Comorbidade é um termo médico primeiramente utilizado por Feinstein em 1970 (1). A princípio o termo referia-se à ocorrência de duas doenças distintas em um mesmo indivíduo, “uma doença adicional num paciente com uma doença índice”.

O conceito atual refere-se à associação, mais que informal, mas provavelmente não causal, entre uma doença ou transtorno índice e uma ou mais patologias físicas ou psicológicas.

A adoção da definição de Feinstein não implica per se na admissão de uma hierarquia entre o “transtorno índice” e os “adicionais”.

A transposição da conceitualização para a área psiquiátrica é mais recente (2). O conteúdo e as implicações do conceito de “comorbidade” têm sugerido reconsiderações e reestruturações ao longo do tempo.

Comorbidade refere-se a “transtornos” (“problemas comportamentais e psicológicos que diferem da normalidade”) e/ou “doenças” (bem definidas como entidades clínicas), não sintomas simultâneos, relacionados nas síndromes. Porém, reconhecer comorbidades pode ser o passo inicial para a identificação de “novas síndromes”.

Esclarecer a direção, o significado e o peso das comorbidades têm implicações fisiopatológicas, evolutivas e terapêuticas.

No campo de psiquiatria, nós lidamos principalmente com transtornos e não doenças (2).

A pesquisa e a abordagem clínica de comorbidades precisam levar em consideração vários aspectos.

Primeiramente, é muito importante considerar o fator “tempo”. A inferência da existência de inter-relações específicas e não casuais entre dois ou mais transtornos depende da relação temporal existente entre esses transtornos, se ocorreu em um mesmo momento “atual” ou “ao longo da vida” (de forma concorrente ou sucessiva) (2). A comorbidade atual refere-se à presença simultânea de dois ou mais transtornos num mesmo período de tempo. Ao “longo da vida” refere-se à ocorrência de transtornos ao longo de um período de tempo que precisa ser especificado (seis meses, um ano ou toda a vida). O conceito de comorbidade “sucessiva” refere-se à ocorrência de dois transtornos ao longo do tempo e não simultaneamente (2).

Lidar com comorbidades faz-nos consentir em descrever situações clínicas sem inevitavelmente abranger explicações causais.

Entende-se por comorbidade homotípica quando verifica-se uma continuidade da fenomenologia dos transtornos, sem grandes modificações ao longo do tempo, enquanto que na comorbidade heterotípica os transtornos assumem diferentes formas clínicas ao longo do tempo.

A comorbidade pode existir entre transtornos de diferentes grupos diagnósticos, como por exemplo, a migrânea e a ansiedade, ou entre transtornos de um mesmo grupo diagnóstico, por exemplo, distimia e depressão maior. Essa análise permite levantar numerosas questões acerca da etiologia, evolução e tratamento dos diferentes transtornos em questão.

Um terceiro aspecto a ser levado em consideração é o tipo de amostra utilizada, se selecionada a partir da população geral ou de uma clínica. Ambas as amostras apresentam prós e contras. Os estudos populacionais evitam vieses de seleção (o chamado paradoxo de Berkson), permitem avaliar taxas de prevalência e incidência, além de fatores de risco para a comorbidade. Por outro lado, os estudos clínicos podem reforçar os achados de um estudo populacional, monitorar o padrão e curso da comorbidade ao longo do tempo e permitem ainda avaliar resultados de intervenções terapêuticas. Apenas as amostras clínicas permitem o estudo de transtornos raros.

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